Movimento Marina Silva

E tantos desencontros, monólogos e fins. Notas sobre PV e Movimento Marina presidente (2010)

 

No começo, o convite se junta com a vontade (de potência), a vontade de participar, de contribuir, de retornar às atividades políticas e partidárias depois de 15 anos de  ver a insuportável decadência da política partidária e da velha e nova esquerda no Brasil.  

 

Um diálogo começou, entre os abismos dos anos de distanciamento, e as operações ‘tapa-buracos’ entre a cultura e a política. E o que seria ‘uma promessa’ de vida futura, ou melhor, uma perspectiva de aproximação com aqueles que desejam e lutam por uma nova política – mais que os enlaces da cultura com a política - se transmutou numa afirmação de ambas com a ecologia e a ética da alegria.

 

Então sucedem-se os encontros, as apresentações dos novos, as entradas e as marcas do que ficou, das diferenças entre diferentes iguais a si mesmos, iguais a todos os mesmos partidos, e os que participam ‘da nova empreitada – um recomeço – de uma outra política.

 

Sim, tínhamos não apenas um nome, um símbolo, uma liderança, mas uma paixão e uma utopia, uma capacidade e vontade indomáveis de construir de novo o novo, que para mim seria a experiência fundamental para se pavimentar o para re-publicar o Brasil a partir das cidades e regiões. Estando, agora, nos paradigmas fundadores do século 21 e não mais na ortodoxia (a velha Doxa) do século 19. Ledo engano. Filiei-me num partido arcaico, medieval, com características tirânicas e fascistas, numa palavra, ecoconservador – apesar de Marina, de Gabeira, de Sirkis, de Hebert Daniel e tantos outros valiosos e impotentes líderes para mudar o PV do jeito que a maioria de nós desejávamos, como ficou claro com o desempenho eleitoral de Marina Silva – em contraste com o desempenho do PV.

 

Quando entrei no PV com o grupo de Marina e fomos “incorporados” à  Coordenação Nacional/Executiva Nacional, existia uma força em nós e dentro de nós, um clima, que, naquele dezembro de 2009, era como uma luz de águas cintilantes que – uma esperança vívida - na história política do partido e do país. Tínhamos duas missões, inadiáveis, inegociáveis, inseparáveis: contribuir na refundação do PV e eleger Marina presidente.

 

A história da ‘refundação’ (quer dizer, da ‘mudança estatutária e atualização programática’) seria nossa primeira frustração – com um sabor de derrota para os novos filiados e milhares de antigos militantes desejosos de mudanças.

 

E o projeto Marina foi - agora o sabemos foi mais que a projeção de uma liderança nova com um capital político, simbólico e pessoal surpreendente, ainda que, por uma parcela, fosse confundido com o seguidismo sectário de culto idolátrico de uma personalidade brilhante e potencialmente inovadora ("Nossa Silva', "Minha Marina"; "Obama de saias", essas coisas horríveis...).

 

Em paralelo, o Movimento Marina Silva e as “casas de Marina” – cujos integrantes e interesses – nem sempre manifestos, como agora o sabemos - se mobilizam, ou foram mobilizados, por ‘uma outra maneira de fazer política’.

 

Sobre ‘as casas’, escrevi assim que foram lançadas as “primeiras fundações digitais” daquela construção ‘alternativa’; do movimento, contava com a força da autonomia, mais que o proselitismo eleitoral que acabou se constituindo  - não sem uma gravíssima conotação de culto à personalidade – coisas ‘bem midiática’ e ‘terceiromundista’, como já escrevi alhures em ‘Sob domínio da mídia’ e nos "Escritos da Espera".

 

Quando apresentei as idéias das ‘DozeTeses (http://plataformaatos.ning.com/profiles/blogs/doze-teses-e-a-qualid...) pensei: tai uma oportunidade de outra construção coletiva, para dois momentos, e que pudessem ser políticamente trabalhados pelos integrantes da coordenação nacional – ou pelo grupo que entrou junto com Marina e outros verdes pelo Brasil adentro e Brasil afora: o gancho das teses seria o movimento de 22 – dos 100 anos de nossa modernidade política e cultural. Com um projeto ‘redecidades’ para 2012; e um caminho de alianças, para 2014.

 

Tudo isso, ou apenas isso, sem falar das traves e entraves das 'prés' e 'pós' candidaturas  constituídas ‘verdes’ nos estados, em vários pontos do país. Em nosso estado, SC, uma vergonha para os minimamente informados e exigentes em qualidade política. Com tristeza afirmo que não imaginava ser o PV um partido tão medíocre em formação política e outras coisitas más, de tão decadentes e miseráveis que jamais pensei existir num partido “verde” de Marina, Gabeira, Sirkis...

 

No início, e durante a pré-campanha, vivi o PV e o projeto Marina, intensamente.

 

Quando ‘nosso’ coletivo foi amputado (o grupo de Marina e a coordenação política dos 21 capturados pelos ‘tocadores da campanha’) e, tudo se reduziu a um “cabo eleitoral primário” centrado numa figura política “carismática” – e logo depois de perceber que nossos encontros estavam sendo ‘científica e religiosamente’ esvaziados,  os diálogos começaram a ficar difíceis, as trocas amigáveis substituídas pelas desconfianças ríspidas, os pensamentos, pelo ceticismo, um sentimento terrível, mais uma vez, vinha a tona, por fazermos ‘a aposta errada’. Resistimos o quanto foi humanamente possível.

 

O esvaziamento da CN/PV ainda durante a campanha e o absoluto ostracismo partidário pós-eleitoral, levou-nos a uma desagregação ao ponto de, hoje,  ver perdido todo o esforço implementado por uma multidão de sonhadores.

 

“Rumo ao pior”, ficamos “a espera de Marina” (Lembremos ‘Godot’, lembremos Bechett) espécie de  “guia” ou “salvadora da pátria verde mãe gentil”,  em cujas “casas” voadoras sequitos interneteiros à postos, espera-se ‘o grande dia’ que virá para se apontar ‘o caminho’ que devemos seguir.

 

Agora sei que, junto com o grupo, ou individualmente, temos de decidir a opção política e partidária, a de cada um/a, e, tanto melhor, se coletivamente for feita. Essa minha ironia incontida é a expressão triste de uma multidão de ativos – partidários e não partidários – que não esperam por uma nova guia, mas por uma companhia.

 

Relembrando Bob Dylan, o que sei é que: ou existimos ("para pensar pensamentos que ainda não foram pensados // para sonhar sonhos que ainda não foram sonhados"...) ou não existimos. Digo mais: somos ou não somos criadores de uma nova política!!!

 

Minha experiência não ser ‘meio’ nem ‘massa’ (de manobras), nem meio – nem massa – separadas das metades e dos inteiros outros -, que um projeto e um programa (político ou cultural ou ecológico – dá pra separar? – devemos se dar conta.  Ser ‘meio, ou  metade, separado do inteiro’ ou ” X, separado de Y, amputado de Z”, ou : “X com Y assinado Z”. Fórmulas escritas no livro da espera, escritos da inespera de qualquer esperança que logo se transforma em desespero, em ascenção da insignificância, em decadência que precede ao fim.

 

Enfim, sei que sou/somos uma ‘potencia de vida’, todos nós, juntos ou separados. Ficam as perguntas: Poderá o PV nos conter, ou conter, os novos dos velhos sonhos, os novos pelos velhos pensamentos, os novos e nossos destinos? 

 

É sobre isso que estou pensando, conversando e decidindo, com todos os sentidos aguçados.  Muito mais que ficar ou sair do PV, apenas.

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