Amigos e amigas deste movimento.
Escrevo para compartilhar algumas reflexões e percepções importantes sobre esta etapa do processo, com intuito de deixar mais transparente o que se passa nos “bastidores” deste movimento (bastidores entre aspas, pois na verdade aqui a arena é circular, e não tem por onde se esconder atrás do palco). O texto está longo, e é para ser lido somente por quem se considera aqui inteiramente "de coração e alma".
Como muitos já devem saber, nossa iniciativa é totalmente autônoma, nasceu e se firmou no mundo inicialmente contra a vontade de Marina. Mas, já conquistou um objetivo inicial de convencê-la, o que foi feito com ajuda do PV, que se tornou um aliado deste mesmo objetivo que nos move.
Depois do convite e o aceite de Marina para entrar no PV, nós permanecemos autônomos e voluntários. Apenas mudamos o título de “apartidário” para “suprapartidário”, e retiramos o termpo “presidente” de nosso nome – tudo isso feito com bastante conversa em nosso fórum.
A convite de apoiadores mais próximos de Marina, passamos a ter algumas oportunidades de encontrar com Marina, que sempre generosamente reconhece a importância de nosso movimento nesta nova trajetória de sua vida. Mas Marina, com sua extrema dignidade e ética política, nunca nos pediu nada além do que já estamos oferecendo, nem tampouco nos ofereceu algo ou algum convite em troca para nos estimular -
ou manipular.
Nos mês de novembro, com apoio de minha esposa eu decidi licenciar-me de minha empresa e retirar-me dos serviços que prestava a dois ministérios do Governo Lula, para dedicar-me integralmente ao movimento, voluntariamente. Desta dedicação frutificaram: um aprimoramento no layout e na escrita do site, a iniciativa de realizar um banco de voluntários (hoje com 400 pessoas), o slogan uma “Vitória Natural”, os bottons,
camisetas, banners e outras imagens de produção online, a dinamização do
twitter do movimento, a formação de um grupo local em Porto Alegre, mensagens de mobilização, escutas diversas e o “arregimentamento”
de pessoas estratégicas como Toinho Alves e Larissa Barros que hoje ajudam a
pensar e coordenar o movimento, entre outras tantas ações.
Nesse meio caminho, tive uma oportunidade de conversar mais aprofundadamente com Marina, no avião retornando do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, semana passada. Esta conversa foi uma bênção, pois pudemos nos conhecer além do “oi” dos poucos encontros rápidos e das conversas que se contam por terceiros, e tecer alguns entendimentos comuns para daqui em diante.
Um ponto comum tem a ver com uma critica que nos é feita com muita razão: falta um caráter mais propositivo ao Movimento. E daí, seguindo um conselho dado por Oded Grajew a mim no FSM, contei a Marina que gostaria de organizar um fórum de discussão de experiências de sustentabilidade já em curso, para servir inclusive como subsídio para a elaboração do programa de
governo de Marina. Ela achou a ideia boa, e que mais adiante o movimento seria
com certeza escutado por sua equipe de campanha e elaboração do programa de governo.
Da parte de Marina surgiu uma sinalização muito inovadora: depois que houver uma candidatura oficial do PV, faria coligações – não com os partidos, mas com movimentos, e o nosso certamente seria um dos primeiros. Daí, poderá surgir algum tipo de parceria efetiva, no qual boa parte das nossas limitações poderiam ser complementados com as potencialidades de outros atores “coligados”
com Marina. E que a partir de então Marina poderá também estabelecer um relacionamento
direto com o Movimento.
Marina havia ficado muito contente por que em um encontro de apoiadores em Porto Alegre surgiu uma jovem participante do movimento, que entre tantas pessoas com importantes trajetórias políticas, se apresentou como “uma cidadã qualquer”. Marina gostou por que acredita que nós temos ao nosso lado os “qualquer um” enquanto Lula tem “todo mundo”, e é apostando em “qualquer um” mesmo que vamos levar
adiante este projeto. De quebra disse que, depois de “chegarmos lá”,
vamos nos diferenciar por continuar apostando em “qualquer um”.
Bom, saí bastante motivado com esta visão genial, e voltei para minha toca e minha telinha para preparar terreno para fazer este movimento se organizar e crescer como deve, como Marina merece. Afinal "nunca antes" houve uma verdadeira campanhã cidadã e suprapartidária para presidente, sem um partido por trás orquestrando.
Deste impulso, está “saindo do forno” uma nova estratégia para formarmos, com apoio de um mapa colaborativo, uma rede na qual são publicados pontos de encontro, locais de distribuição de materiais e mobilizadores locais. Enquanto isso estamos convocando os 400 iscritos no banco de voluntários a serem mobilizadores locais.
Também estou fazendo um resumo das 5 ações básicas, as 5 ações online e as 5 ações presenciais que cada um de nós pode fazer no movimento – uma orientação para ajudar cada um que quer apoiar Marina a se engajar. Este resumo já está online mas ainda em fase de revisão, para o quanto antes ficar em maior destaque. Acredito que vai ajudar bastante a botar um rumo para o movimento crescer com consistência.
E além disso ainda tem outras idéias sendo preparadas, que tenho muito desejo de compartilhar mas ainda não posso, pois tudo aqui publicado cai diretamente nas mãs de nossos opositores infiltrados, e podem ser copiadas ou de alguma forma sofrerem algum tipo de “atrapalho”. Mas é importante dizer que tenho tido muitas conversas riquíssimas com apoiadores de Marina dentro e fora deste movimento,
ouvido bons conselhos, o que me tira qualquer possibilidade de me colocar como
autor das idéias que estou “canalizando”, mas num lugar de facilitador de um processo
criativo.
Preciso compartilhar mais uma coisa, que foi o motivo que me fez perder o sono nesta madrugada e escrever este texto. Estou me dando conta de que é humanamente impossível levar adiante este empreendimento sem uma estrutura adequada. Vejo que minha maior contribuição daqui em diante seria ajudar cada pessoa que quer apoiar Marina a encontrar uma forma de aproveitar ao máximo os
dons, o tempo e os recursos que possui. Mas atualmente estou dedicando 80% do
tempo a manutenção do site (que faço junto com uma rede de voluntários, mas
diga-se de passagem, coordenar voluntários dá muito trabalho!) e sobra pouco
para olhar para as outras fomas de
voluntariado, escutar e ajudar a encaminhar as pessoas agoniadas querendo fazer
algo sem saber exatamente o que e com
quem. E ainda tem uma lista muito grande de voluntários - já engajados e querendo se
engajar - que precisam dialogar com alguém coordenando o movimento, e esta
tarefa infelizmente ainda são poucos com condição de dar conta.
Penso que temos total condições de atingirmos um patarmar de 100 mil participantes antes da campanha iniciar em julho. Mas coordenar isso sem uma equipe mínima de profissionais para operacionalizar o barco, seria impossível. Assim sendo, sinto que é hora de dar ouvidos aos muitos que vêm recomendando que façamos algum tipo de
captação de recurso. Não sei ainda que forma exata teria, mas conversando com
parceiros aliados chegamos a um desenho no qual pessoas físicas ou jurídicas
apoiariam o movimento com a contratação direta de 1 ou 2 profissionais para dar apoio
técnico. Desta forma, não seria necessário criar uma institucionalidade, e a
forma de apoiar ao movimento seria coerente com sua lógica em rede,
descentralizada e autogestionária.
De minha parte, me encontro na seguinte situação: abdiquei de todas as minhas fontes de renda e exauri minhas reservas financeiras para chegar até aqui, e não tenho condições de seguir adiante voluntariamente em tempo integral a partir de março. Me vejo diante da necessidade de decidir retornar ao meu trabalho normal ou continuar com algum aporte financeiro. E sinto tranquilidade em obter algum apoio para que eu possa continuar me dedicando em tempo integral, sem que isso descaracterize o trabalho como sendo essencialmente voluntário.
Quero ser absolutamente transparente quanto ao que estou sentindo e pensando, até mesmo por que encontro total espaço para ouvir recomendações diferentes quanto a esta possibilidade. Eu realmente posso estar enganado. A única certeza é a busca por achar a melhor forma de lutar pela causa. Quero ouvi-los a respeito deste ponto.
Por fim, quero reafirmar a alegria, a esperança e a gratidão de estar aqui junto com vocês, sendo um “qualquer um” lutando por uma causa tão nobre e verdadeira, uma utopia tão rara de se poder pegar nas mãos nos dias de hoje.
Um abraço com muita paz e um pouco de sono.
Eduardo Rombauer van den Bosch
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