Conheci Marina quando era senadora, numa das viagens que fiz à Brasilia por volta de 1999. Eu tinha lido a estoria de vida dela e me inspirou tanto que eu pensei em fazer um filme. Levei de presente meu filme de 10 minutos Filhas de Zumbi, com poesia de Elisa Lucinda. Marina escutou minha proposta e na sua modestia tentou me descartar com delicadeza, a vida dela era para o trabalho e nao ser artista de cinema. Mas eu tinha outro argumento: " Marina, o filme nao é para enaltecer voce. é para inspirar milhares de garotinhas nesse Brasil que uma menina pobre, nascida na Amazonia, estudou pra caramba e conseguiu chegar a ser Senadora para melhorar o Brasil." Entao ela me olhou de novo e disse: "Ah, bom, se é um filme pras escolas eu faço".
O projeto ficou na fila esperando eu terminar um outro que ja tinha começado e se chamava " Dedos Femininos na Mao de Deus". Era um filme de ficçao, uma comedia politica sobre tres beatas numa cidade da Amazonia que descobrem que seus maridos sao corruptos e tem um plano para derrubar a floresta e evacuar os indios, e entao, meio desnorteadas por causa do assassinato do padre e os calores da menopausa, acabam descobrindo uma catacumba embaixo da igreja e prendem os maridos la, finjindo na cidade que eles morreram e pegam as redeas da cidade impulsionando tudo que os maridos se negavam a fazer, priorizando a educaçao, a saude, e uma economia sustentavel.
Por falta de recursos, a ficçao acabou virando documentario, e eu fui para o Xingu filmar em 2003 o ritual do Yamarikuman, onde as indias de 14 tribos se reunem para a "festa das mulheres", uma tradiçao pre-historica, que foi passada oralmente de geraçao em geraçao atraves de cantos e danças que contam como as mulheres tiveram de aprender a usar o arco e flecha para caçar e pescar para alimentar suas crianças que estavam morrendo de fome devido ao descaso dos homens, que tinham saido numa viagem de pescaria e nao voltavam, deixando as mulheres desnorteadas e tendo de tomar uma decisao para salvar a comunidade.
E na volta passei por Alta Floresta, onde Marina inaugurava a feira sustentavel e fazia um discurso para os fazendeiros da regiao durante a Convençao sobre o fogo, um discurso de causar arrepios e que foi aplaudido de pé. E assim pude entrevistar Marina para o filme, ela e outras corajosas amazonas modernas que defendem as florestas do Brasil, como Maura Bentes, extratora de borracha e lider comunitaria do povoado de Suruaca, no Rio Tapajos, e como Isanete Bieski, farmaceutica em Cuiaba que implantou a farmacia-viva uma horta com plantas medicinais da flora do cerrado nas unidades do SUS e tenta recuperar a fé das pessoas na medicina que custa pouco valorizando a biodiversidade do bioma mais ameaçado do Brasil, como tambem as cariocas Yara Valverde e Denise Tarin, protetoras incansaveis da Mata Atlantica e das florestas de Petropolis. Este novo filme se chama " Despertar das Amazonas" e ainda nao foi lançado. Mas o sera, na hora certa.
Apoio Marina porque Marina é inspiraçao. Marina é ética. Marina é como eu sou, e como muitas mulheres guerreiras que encontrei nesta vida sao. Gente que trabalha pelo bem do proximo e nao pelo bem proprio. Marina conhece o Brasil de cabo a rabo, escuta cientistas, escuta o povo, escuta os professores e as crianças. Marina é inteligentissima. Muitissimo bem preparada para cuidar do Brasil e propelar o desenvolvimento e o progresso, mas com uma visao ampla, sem interesse proprio, mas interesse na continuaçao da vida de todos os seres vivos, crianças, plantas, animais, velhos, negros, jovens, todos.
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