Movimento Marina Silva

Para intelectuais, crise política e Marina mostram fim da polarização PT-PSDB

Haroldo Ceravolo Sereza
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Marcos Nobre: crise revela fim da polarização PT-PSDB

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Na sexta-feira (28), o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), de São Paulo, colocou na mesa Gianotti, professor emérito da USP, e Nobre, professor da Unicamp, representantes de duas gerações da instituição, para debater a crise no Parlamento.

De forma sintética, pode-se dizer que os dois - ou melhor, os três, num raro consenso, o que torna essa síntese mais relevante - acreditam que a política vive uma crise, que esta crise mostra que a polarização entre blocos formados por PT e PSDB está perto de seu limite, que o Parlamento se "autonomizou" em relação à sociedade e que a reação à provável candidatura de Marina Silva, até o momento, é uma espécie de resposta desta sociedade a uma política que deixou de ouvi-la.

Com o pequeno auditório lotado de intelectuais, eles apresentaram suas análises para a atual crise. Chico de Oliveira, também emérito da USP, foi o mais ativo na audiência, que contava com outros intelectuais de peso.

Nobre apresentou primeiro sua tese: para ele, entre 1992 e 1994, Fernando Henrique Cardoso, ao aproximar o PSDB do PFL (atual DEM), organizou a política brasileira em dois grandes pólos: um liderado pelos tucanos, outro pelo PT e seus tradicionais aliados. O PMDB seria uma espécie de "zona neutra" entre os dois, podendo compor qualquer um dos governos.

Após ser eleito, em 2002, Lula tentou resistir a essa organização, evitando se aliar ao PMDB. O preço que pagou foi a crise do mensalão. Depois de 2005, ele aceita o modelo colocado por FHC, incorpora o PMDB ao governo e passa, cada vez mais, a depender do partido de Renan Calheiros (PMDB-AL) e José Sarney (PMDB-MA).

Chico de Oliveira: PT deve tentar impor Palocci contra Dilma

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Segundo Nobre, Lula então percebe, ainda em 2007, que, para evitar que seu governo caísse na fase do "pato manco", ou seja, a sensação de "fim de feira", em que nada funciona direito, precisava controlar a sucessão. Daí o projeto de impor Dilma Rousseff ao PT e de antecipar o debate em torno de 2010, tentando manter a polarização entre seu partido e o PSDB.

Essa estratégia rendeu-lhe, primeiro, a crise que levou ao afastamento de Renan Calheiros da Presidência do Senado e, depois do anúncio do câncer de Dilma, a que não conseguiu afastar José Sarney.

Nobre acredita que há uma crise no "sistema de gerenciamento instaurado por FHC", expresso pela resistência de Sarney. Para ele, esse sistema não se mostrou suficientemente maleável e está "fazendo água".

Desde o impeachment de Fernando Collor, em 1992, havia uma expectativa da sociedade de que é possível pela pressão popular, ainda que sublimada pela figura da "opinião pública", afastar políticos acusados de ilegalidades.

"Aconteceu com Luiz Carlos Mendonça de Barros (que deixou o Ministério das Comunicações de FHC em 1998, suspeito de favorecimento num episódio relacionado às privatizações na área), com Antonio Carlos Magalhães e Jáder Barbalho (que deixaram o Senado em 2001 após troca de acusações de corrupção e da violação do sigilo de uma votação na Casa). Renan foi a primeira virada: deixou a Presidência, mas não o Senado. Agora, Sarney permaneceu na Casa e na Presidência", elenca.

Em resumo, o sistema de dois pólos não está mais funcionando. A resistência de Sarney indica o fechamento do sistema político ao controle indireto. "Quanto mais o sistema faz água, mais ele se fecha", avalia Nobre.

Gianotti: 'Sarney não saiu, mas também
não ficou'

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Gianotti, por sua vez, acredita que a caminhada em direção ao centro pelo PT, com uma aliança maior do que a feita por FHC, quebrou uma regra básica da política: "A política junta as pessoas e, ao mesmo tempo, divide. Política implica aliados e adversários."

Com o "bolão" formado por Lula, argumenta Gianotti, "o jogo político passou a não mais dividir, a ponto de até o Mangabeira Unger virar ministro", completou, arrancando risos dos ouvintes. "Sem divisão, a luta pelo recurso público aumentou", houve um "rebaixamento dos compromissos morais", e a "política foi para um lado e a sociedade para o outro."

Nesse contexto, a moralidade é usada como arma para a mídia pela oposição (PSDB-DEM) e pelo governo. Gianotti fez, então, referência ao embate entre Suplicy (PT-SP) e Heráclito Fortes (DEM-PI). Para o filósofo, "foi uma cena patética, com os dois se desmoralizando em público".

Neste contexto, em que o jogo político não mais funciona, surge espaço para "um tercio", um terceiro candidato - alguém que surja com o papel de "moralizar a política". Esse nome, para Gianotti, pode ser o de Marina Silva, que vê com mais simpatia, Ciro Gomes (PSB-CE), que Gianotti teme como figura autoritária, ou "alguém da direita".

"Marina higieniza a política. Traz para a pauta política a questão ambiental. Por outro lado, temos uma pessoa que não tem uma compreensão ampla do capitalismo atual", diz.

Tanto ele quanto Nobre seriam, no decorrer do debate, questionados sobre a real possibilidade de a candidatura Marina Silva emplacar. Para os dois, mas especialmente para Nobre, o que está em jogo não é exatamente se ela vai ter uma votação expressiva em 2010, mas a recepção que seu nome teve. Ele comparou essa repercussão a uma espécie de recado da sociedade - se o sistema em dois pólos não funciona mais e se torna insensível à sociedade, ela se manifesta por meio de um terceiro elemento, um terceiro nome.

Chico de Oliveira, que recentemente disse ao UOL Notícias que a candidatura Marina seria "um raio de sol" diante do quadro PSDB-PT, concordou com boa parte da análise da mesa. Para ele, "a política tornou-se irrelevante para o povão: Ela não diz nada sobre o cotidiano e sobre a economia". Sintoma disto, diz, ocorreu durante a crise do mensalão, em 2005, quando os comentaristas econômicos diziam que o importante era a crise não afetar a economia. "Crise política que não afeta a economia não vale! A crise política é feita para desestabilizar a economia."

Para ele, houve a tal "autonomização" da política, em parte porque o desenho da política em dois pólos, o do PT e o do PSDB, que parecia corresponder às forças sociais, deixou de funcionar. "A política não regula mais a luta de classes", disse Oliveira. Ela estaria amortizada, e Lula teria promovido essa "regressão".

Em relação a Gianotti, Oliveira disse discordar de uma posição do filósofo, a de que FHC "enrijeceu a disputa pelo fundo público - ao contrário, abriu, permitindo que todos os grupos o pudessem disputar." Com seu programa de destruir a Era Vargas, "que é a construção do Estado brasileiro", argumenta Oliveira, FHC desbloqueou os mecanismos regulatórios, "e o pasto ficou livre". "A gente se diverte, lê jornal, quer matar o Sarney, não adianta nada. Esse sistema cria seus filhotes independentemente da vida real."

Gianotti defendeu também que a atual conjuntura torna a crise no gerenciamento político especialmente problemático. "O sistema político não está mais respondendo aos grandes problemas políticos do país", e esse problema não se limita ao Legislativo. Cita, por exemplo, a demora para a definição do modelo do pré-sal e a crise na Receita Federal. Marcos Nobre, nesse ponto, acrescenta os sucessivos adiamentos no Supremo Tribunal Federal de questões fundamentais.

Sobre 2010, ainda, Chico de Oliveira previu que a candidatura Dilma Rousseff vai enfrentar dificuldades, diante da decisão do Supremo Tribunal Federal de excluir Antonio Palocci do processo de quebra do sigilo bancário de Francenildo Costa.

"Provavelmente as forças internas do PT vão exigir a retirada da Dilma e a colocação do Palocci. Se isso vai dar certo ou não, não sei", diz. Para ele, Palocci não deve se contentar em ser, apenas, o maestro do "concerto de gala" de Dilma.

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Comentário de angelo pansa em 17 julho 2010 às 0:40
Valeria a pena se perguntar por que as populaçoes indìgenas do Brasil estao desapontadas com as polìticas do Governo Lula que nao cumpriu o que prometeu na Declaraçao de Intençoes apresentadas apòs o Encontro dos Povos Indìgenas e dos Povos da Floresta em 1989 em Altamira? Encontro em que foi clara a posiçao dos Povos Indìgenas e dos Povos da Floresta ( seringueiros, ribeirinhos,sem-terra, etc..."os "sem-direito algum") contra os Projetos de "desenvolvimento" na Amazonia, como as Barragens no rio Xingu, os latifùndios na Terra do Meio, etc... No que se refere a Terra do Meio-PA: o uso do herbicida NUFARM 2,4-D "manipulado" com outro produto "nao identificado" que poderia ser o 2,5-T. 2,4-D + 2,5-T = AGENTE LARANJA.
Padre Angelo Pansa.
Comentário de Eduardo Sejanes Cezimbra em 31 agosto 2009 às 12:57
Coloquei este artigo no Twitter, com o adendo:"Já é alguma coisa, o fim da polarização PT X PSDB!"( coisa do twitter)...
Toda esta bagunça política, cada vez mais autoregulável, em um círculo vicioso ad nauseum ,possui alguns neologismos para retratá-la: IMEXÍVEL (Magri, lembram dele e a sua cadela também humana), BLINDAGEM( depois do Fora Collor este acordo tácito uniu PT e PSDB e seus partidos auxiliares ,para não correrem o risco de serem merecidamente defenestrados) e GOVERNABILIDADE ( quem foi mesmo que falou esta outra cláusula pétrea da Rês -pública? "É DANDO QUE SE RECEBE...)
Pois bem, este sentimento "legítimo" de IMPUNIDADE dos políticos, corroborado pelas prática de "LADRÃO JULGANDO LADRÃO", O QUE DÁ 500 ANOS DE CORRUPÇÃO, está definitivamente em xeque, desacreditado ( tem a ver com crédito mesmo,afeta o bolso e a bolsa de valores, grosso modo, a parte mais sensível do ser humano) e, de fato , a eminência de uma candidatura com o perfil a Marina é uma grata surpresa para muitos, e para outros tantos uma ducha de água fria nas suas pretensões eleitoreiras.
O movimento Marina Presidente é uma espécie de resposta não-violenta a esta blindagem, tal como água e sal, que vai oxidando a blindagem até que ela se corrói.
E, nada nos impede, a não ser nós msmos, de junto com a candidatura irmos levantando o clamor de uma Constituinte exclusiva para as imprescindíveis reformas políticas e sociais que a sociedade está cobrando.
Por enquanto, fico por aqui, vamos nos falando, tecendo nossa redes de transformação...(é um bom começo!)
Grato
ABC (Abraço e Beijo do Cezimbra)
Jnte-se a nós, pela Cura de Gaia, nossa Mãe Terra!
http://transnet.ning.com/
Comentário de Gustavo T Gazzinelli em 30 agosto 2009 às 11:09
Este descolamento do parlamento da sociedade e da República me parece a grande questão.
Temos que avaliar seriamente a possibilidade de dizer NÃO aos atuais parlamentos, desta forma provocando a obviedade da produção de uma verdadeira reforma política nacional e nos estados. Chega de acochambramentos!

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