Algumas coisas não são o que dizem ser, e este lugar onde ficamos é uma delas. Tem o nome de praça, mas não é uma praça. A Praça Sete é o cruzamento das duas maiores avenidas do centro de Belo Horizonte: Afonso Pena e Amazonas. A Afonso Pena abriga a prefeitura, o parque municipal; começa na rodoviária e termina no sopé da montanha, a mais de 1.000 metros de altitude. A Amazonas começa em outra praça, a da Estação Ferroviária, e se entende por vários quilômetros até sair da cidade, transformar-se em rodovia e dar em São Paulo: é um rio de carros em fluxo constante. No exato cruzamento entre as duas avenidas, ergue-se um obelisco. Só isso. Não há bancos para sentar, fonte ou jardins. Ao redor, o tráfego, os gases de escapamento e as partículas invisíveis de borracha preta em suspensão.
Nas quatro laterais desse simulacro de praça, há quatro ruas fechadas aos carros, transformadas em calçadões onde transitam milhares de pessoas. É um lugar de concentração, espaço tradicional de manifestações políticas, embora os grandes eventos não sejam mais realizados ali. Durante a campanha, a esquina de um dos calçadões vira uma espécie de feira eleitoral: tem de tudo, para todos os gostos. As barraquinhas dos candidatos formam um verdadeiro acampamento, e a esquina se torna um labirinto de disputas partidárias sobre um tapete de santinhos.
Manhã quente de um sábado nublado, dia 2 de outubro, véspera do primeiro turno. Laura X e eu, diante da profusão de vozes, papeizinhos e corpos em transe, decidimos não ficar naquela esquina de algazarra política. Atravessamos a Amazonas e ocupamos o centro da outra esquina, na beirada de um calçadão mais tranqüilo, sem a legião de camelôs eleitorais e das tendas lotadas dos outros candidatos. Daquele lado, havia somente um elefante (sim, um elefante!) e nossa “barraquinha”, feita de uma caixa de papelão que Laura encontrou jogada em algum canto e transformou numa espécie de balcão para os materiais de Marina. Ali dava para respirar, tínhamos espaço ao redor e o único concorrente direto era o elefante de poliuretano de 3 metros de altura, devidamente logomarcado com o nome e número do seu deputado de estimação. Junto ao paquiderme enorme, claro, as meninas distribuidoras de santinhos; duas ou três garotas que se transformaram em nossas companheiras de panfletagem sob o mormaço da manhã.
Éramos dois, Laura X e eu, os “marineiros” em todo o mar de gente da Praça Sete naquele último dia de campanha. A incansável Laura Xavier – que, cá para nós, passei a chamar de X porque é um mistério o elemento químico que lhe dá tanta energia – foi quem decidiu pela ação na “praça”. Aliás, a moça é quem pôs gás nas ações de rua durante quase o período todo de campanha. Enquanto grande parte dos aguerridos participantes do “MMS Minas” se perdia em intermináveis reuniões infrutíferas em cafés e comitês, lá se ia a Laura X, com um ou outro companheiro convocado pelo Orkut ou Twitter, distribuir materiais nas ruas e conversar com o povo. O outro catalisador das ações de rua foi o também infatigável Fernando (assim, sem sobrenome, que segue para mim desconhecido). Ora o Fernando X (!), ora a Laura convocavam, insistiam em ir para as ruas, ir para as ruas, ir para as ruas panfletar, adesivar, bandeirar. De onde surgiram ambos? Ninguém sabe. Só sei que foram decisivos na campanha eleitoral esses dois agitadores daqui.
A Laura eu conheci assim: soube, pelo próprio Fernando, que ela iria panfletar em algum lugar. Fiz um telefonema e pronto. Quando cheguei, Laura passou a me dizer imediatamente o que eu tinha de fazer: “você começa por ali, circula por aquele lado da feira de artesanato e não se esqueça de panfletar naqueles bares, porque lá tem um montão de gente”, bla, bla e bla. Pequena, brava, disparadora de ordens. Tudo bem, pensei. No sábado na Praça Sete, a mestre em química (Laura X é química!) não precisou mais emitir seus comandos atômicos porque sabia que eu já aprendera a fórmula do corpo-a-corpo nas ruas. Ficáramos amigos.
Laura X postou-se na banquinha de materiais em meio aos pedestres; eu me dediquei à abordagem direta, um a um. Terminado o material nas minhas mãos, eu recorria à banquinha. Quando o material da banquinha diminuía, eu a abastecia com o que tinha trazido na mochila. Tudo o que havia estocado em casa, levamos para a praça: adesivos redondos (“praguinha”) verdes de Marina43, a praguinha branca Marina43 (do Movimento), adesivos para carro, outros adesivos, alguns poucos panfletos (Marina+Guilherme) que foram produzidos para a reta final, tatuagens e mais tatuagens. Uma bandeira ficava por lá, para “decorar” o ambiente.
O esquema mostrou-se razoável e eficiente: a banquinha chamava a atenção de alguns; outros eram capturados à queima-roupa. Uma grande parcela dos transeuntes só se abria para receber os materiais depois de ouvir a senha: “Marina Silva”. Nosso corpo-a-corpo jamais foi perdulário e ostensivo: não se tratava de empurrar um papel para qualquer um. Nosso material principal – o adesivo – e nossa proposta de abordagem exigiam que fizéssemos algum contato, nem que fossem poucas as palavras trocadas. A manhã transcorreu desse modo, com as mesmas palavras entoadas na balbúrdia do centro: “Marina Silva”, “Um adesivo da Marina Silva!”, “E aí, conhece a Marina Silva?”, “Quer um adesivo da Marina?”, de pessoa a pessoa, para cada pedestre. E até que nosso material terminasse. Esse era o compromisso. No último dia de campanha, não deixaríamos sem uso os materiais que havíamos guardado para a ocasião.
Quando ganhamos o reforço de mais três ativistas marinísticos, nos dividimos pelas ruas do entorno da “praça”. Permaneci a maior parte do tempo numa esquina próxima, recebendo de vez em quando a visita de Letícia Sanz, que se ocupava de outra esquina. De tempos em tempos, íamos até a banquinha nos abastecer de material. Numa dessas incursões de reabastecimento, percebo ao longe na Afonso Pena uma movimentação diferente do normal: música amplificada, o inconfundível rumor das massas nas ruas, apitos, bandeiras ao vento. Se já éramos poucos quando comparados aos camelôs eleitorais do lado fervilhante da feira da “praça”, agora, diante da multidão elétrica que se aproximava, a cantar jingles de campanha e a bradar urgentes palavras de ordem, só nos restava assumir nossa insignificância numérica e ficar quietinhos, quietinhos.
Vivemos ali um considerável risco de antropofagia simbólica. Um enorme cortejo-para-a-vitória de Dilma avançava pela avenida como numa evolução de escola-de-samba campeã, com seus trios-elétricos, milhões de faixas, bilhões de bandeiras, passistas, militantes. A comissão-de-frente trazia prefeitos, ex-prefeitos, ex-ministros de Lula, todo o alto e o baixo clero do legislativo petista mineiro e, não sei bem, talvez do PMDB. Tiveram todos a mesma ideia luminosa de Laura X: encerrar as atividades de campanha, de forma apoteótica, na famosa Praça Sete. A diferença residia no poderio cênico espetacular. O bloco de Dilma vinha como desfile de 7 de setembro (o nome da praça!), faltando apenas os voos rasantes de uma esquadrilha da fumaça petista; os colaboradores de Marina contavam-se numa única mão e possuíam como principal adereço uma caixa de papelão e uns adesivos na camiseta. Estávamos longe, bem longe de uma apoteose verde.
Decidi atravessar a rua para ver de perto a imponente caminhada da megacoligação favorita. Confesso que estremeci. Em meio à multidão de bandeiras, reconheci ali uma multidão de amigos: ex-colegas de faculdade, a “turma da cultura”, pessoas com quem tive e mantenho ótimas relações profissionais por conta das minhas consultorias para a prefeitura, gente com quem dividi copos de cerveja e estrelinhas em todas as eleições anteriores, etc. Um atavismo insidioso tomou meu corpo de um pesar profundo e, então, compreendi imediatamente a natureza de certas disfunções patológicas resultantes do isolamento social. Eu não era mais do bando. O macaco que ousara medir forças com o macho-alfa tinha sido posto para fora do grupo e saboreava o gosto amargo da exclusão. Aquilo doeu. Não que eu tivesse dúvidas sobre a opção política de apoiar Marina; aliás, era justamente por não haver dúvidas que eu me postava ali no mormaço de sábado, molhado de suor, a enfrentar um exército hostil com meia-dúzia de adesivos. O drama era de outro tipo: tratava-se de uma batalha íntima e silenciosa entre a pulsão gregária e uma certa assunção altiva da marginalidade; entre uma história de filiação ideológica que chegava ao fim e um novo projeto político-estético ainda por vir; entre dois processos de pertencimento, carinho e vínculo: um, antigo e esgotado; outro, incipiente, instável, à beira do risco. No fundo, eu vivia uma encenação da separação – e alguns olhares recriminadores lançados da multidão para o meu peito marinado faziam-me relembrar a minha condição indesejável. “Vai-te embora”, gritavam. Um diretor de teatro, velho conhecido dos tempos de DCE, fingiu não me ver (depois que nossos olhos se cruzaram). Segui o conselho implícito. Me fui.
Voltei para minha esquina. Encontrei ex-alunos, que estranharam o professor em atitude anômala no centro da cidade, mas receberam com entusiasmo o material de Marina. Conheci uma garota cantora, de nome indiano e tênis vermelho; um casal de namoradas que panfletariam para Marina entre os amigos; famílias inteiras que, por causa da religião, optavam pela candidata; e mais meninas, senhoritas e senhoras. Homens, em especial os mais jovens, não davam bola para meu discurso, minha abordagem, Marina, política. 90% dos rapazes recusavam o material. A experiência de rua demonstrava uma enorme diferenciação da receptividade de homens e mulheres – e isso acabou por retroalimentar e reajustar o procedimento de panfletar. Passei a abordar mais as mulheres e a deixar passar os homens. Isso merece um estudo. Aliás, digitei no Google “arte de panfletar” e não vi nada de interessante.
Quando o movimento no centro começou a diminuir, decidimos partir para onde houvesse gente. Laura X, Jef, Letícia, Ricardo, seu filho e eu seguimos para uma feira de antiguidades e comidas situada na avenida Bernardo Monteiro. Mas a cidade, em ritmo de pré-votação, parecia entorpecida. Quase ninguém diante das mesas coloridas sob as árvores da avenida. Fomos salvos pela comida indiana. A tarde modorrenta avançava, casais dançavam um forrozinho entre as mesas.
No último dia, munidos dos últimos materiais, urgia buscar as últimas concentrações de pessoas. Seguimos para o Quarteirão do Soul e para o Mercado Central. Laura X e eu ocupamos uma das saídas do Mercado. Deu certo. O Quarteirão do Soul é um local de encontro dos amantes da black-music: os caras colocam o som e ficam por ali, vestidos a caráter, a curtir e a dançar. Deu certo também. Tinha muita gente nos bares ao redor. Fizemos várias incursões panfletárias.
Já era noite, o material quase no fim (éramos duas duplas: Letícia e Jef, Laura X e eu), percorremos os pontos de ônibus nas ruas do centro, entre o Mercado e a Rodoviária. Lembro que entreguei o último adesivo para uma moça na esquina das ruas Tupinambás e Guarani. Passava das nove da noite. A mochila voltaria vazia para casa.
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Corte. Agora, outro ambiente. O cenário é um restaurante japonês no bairro de Lourdes. A noite ainda é de sábado, 2 de outubro. Faltam poucas horas para o início do primeiro turno. À mesa, encontram-se cinco pessoas amigas.
Uma delas é uma garota de 15 anos, que não vota mas fez campanha para Marina: ajudou a distribuir adesivos no semáforo, participou do piquenique e do banner humano na praça da Estação, representou o papel de Marina Silva num vídeo feito para um trabalho do colégio. O segundo dos participantes da mesa é o pai da garota, panfletador de praça Sete e Mercado Central, exausto, mas de banho tomado, fresco e satisfeito com os exercícios do dia. O terceiro é um economista atuante na área de planejamento de sucessivos governos petistas na capital e região metropolitana, conhecido pela erudição e pelo sarcasmo. A quarta comensal é uma charmosa fazedora de doces e profissional da Justiça. Por fim, fechando a roda, temos uma socióloga, ativista de uma grande ONG internacional e que vive na Suíça, de passagem pela cidade para, dentre outras coisas, votar.
Tais cinco companheiros da tavola japonesa parece que gostam de falar de política e, assim, a noite doce transcorre embalada a análises de conjuntura, saquê, sashimis e pratos exóticos especialíssimos. A tradicional pesquisa de intenção de voto de mesa de bar revela um incrível empate técnico e não-técnico: uma não-votante, um voto em Marina, um voto em Plínio, um voto nulo e um voto em Dilma (Serra não apareceu por lá, paciência...). Naturalmente, não faltaram as projeções do resultado da votação. Ninguém acreditou quando arrisquei que Marina chegaria ou ultrapassaria os 20% dos votos. Minha experiência de rua indicava uma votação expressiva. Dava para sentir. Estava no ar. Agora é fácil entender: no dia seguinte, Marina receberia 40% dos votos válidos em BH, em primeiro lugar!
Não houve maneira melhor de encerrar o último dia de campanha senão junto àquele grupo multieleitoral, a fruir boa comida e ótima convivência. Tão diversos em opinião, tão parecidos nos modos de ouvir e debater, era todo mundo pura gentileza. Tudo bem diferente do clima de jogo de guerra que pude testemunhar nos últimos meses. Àquela mesa de interlocução aberta, atenta e compreensiva, não havia crítica ácida que não fosse generosa como a amizade que se compartilhava ali. Se você quiser um exemplo do novo modo de fazer política, ei-lo. Sim, você poderia argumentar, mas essa mesa constitui um espaço de não-poder; é por isso que nela se realiza o melhor jeito possível de viver junto. E eu diria: sim. Exatamente.
A noite terminou com cinco seres aboletados num único automóvel sendo deixados, sãos e salvos, diante do portão de casa, num típico esquema de carona solidária. Uma ética da amizade deu o tom dos dias de mobilização em todos os meses de Movimento, uma experiência ética da amizade marcaria também o fim do processo de campanha e o fecho daquela noite. Se o que desejamos é democracia e liberdade, não há dúvida de que os princípios que devem reger a política devem ser os mesmos a reger as relações mais prosaicas e de que não pode haver distinção entre os meios, os métodos, os caminhos e as metas, os horizontes, os projetos que dão sentido a tudo. Aquele dia e aquela noite fizeram, como fazem hoje, todo sentido. Belo fim de ciclo.
E assim começou o domingo.
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