Movimento Marina Silva

 

Escrevo-lhes com a velocidade da urgência, portanto, com a provisoriedade das palavras. Das palavras, mas não dos sentimentos. Sim, dos sentimentos, mas não da opinião - porque opinião não basta! -, mas pensamento, movimento e vida.

 

Não queria deixar escapar este momento embutido no movimento em curso. Leia-me, portanto, assim: “Mo (Vi) mento”, tal como o vivo no Mo (Vi) mento Bom de Ler (www.plataformaatos.ning.com), onde passarei a escrever daqui em diante.

 

Também não poderia deixar de pro/visionar uma preocupação que tenho sobre “a direção” para a qual estamos indo, sendo.  E, como aqui se trata de um texto "provisório", via de regra, corre o risco de se tornar definitivo, então pensei pontuar este “Para onde estamos indo, sendo” por bifurcações, caminhos e desvios.

 

A primeira bifurcação é o rebento mais recente, imediato e visível: chamo-o de “Novos e Usados”. O segundo é o lado contrário da mesma dobradiça, vista de dentro e colado à porta e a chamo de “Achados e Perdidos”.  Terceiro, é o desenho traçado pelas mesmas pro-visões/pro-visórias, expressas no dito de Marina Silva: “Pragmáticos e Sonháticos”. Por último, a hipótese improvável de que venhamos a dar conta no âmbito apenas do Movimento, sem enfrentarmos a questão do “Com Poder e Sem Poder”.

 

Novos e Usados

 

Está claro/não está claro (quer dizer a mesma coisa) que o Mo(Vi)mento nasce de ideias e motivos (motivações) novas, e, no entanto, não tão novas assim.

 

Eu mesmo vivi este Mo(Vi)mento “em outras vidas”, passadas e recentes. O que há de novo certamente não são as pessoas, nem as impulsões, nem os interesses, as paixões ou atuações. Mesmo os jovens presentes são nossos “velhos” conhecidos: os mesmos dilemas, as mesmas buscas, as mesmas urgências, as mesmas irresponsabilidades, as mesmas inquietudes, as mesmas descrenças. Sobre, com ou para estes jovens de sempre, falarei ou escreverei, oportunamente.

 

Quero me reportar um pouquinho acerca dos “Usados”, como é o meu caso e, possivelmente, da maioria dos presentes. “Usados”, porém, ousados. Talvez seria o caso de, antes, demarcar alguns perfis. A rigor não há nenhum “novo” Encontro para a Nova Política mas a repetição do velho sonho de se reinventar a velha política.

 

Quando alguns de nós saímos do PV, outros ficaram; alguns não querem mais saber de partido, outros querem cada vez mais; quando se observa aqueles que se guiam pela urgência e os que se governam por princípios..., tudo isso já diz tudo ou quase tudo, ainda que não dito: ou somos novos ousados ou já somos velhos usados!

 

Isso não é um jogo de palavras mas a própria palavra posta em jogo, em movimento[i], na forma de “promessa” (“agora vai mudar... agora é o novo acontecendo”) ou na forma de “compromisso” (“ vamos juntos pelo Brasil sustentável...). Se é promessa for apenas uma promessa, esqueçamos de que temos algo de novo à oferecer; se for compromisso, veremos que sua cadeia produtiva logo nos levará aos jogos compensatórios da política. Ousar criar o novo ou apenas repetir as velhas formas de se fazer política, eis o dilema presente neste departamento do poder chamado “Novos e Usados”.

 

Achados e Perdidos

 

Passemos rapidamente para nossa segunda bifurcação, antes que a porta se fecha e nos bata na cara: novamente aqui me situo entre os perdidos, que também são a sua maioria, distinta dos “achados” que, como sempre, são as mais notáveis minorias.  Quem não está perdido de tanto se encontrar? Quem não se desentende de tanto conversar?

 

Chamar de novo a Nova Política não seria refletir, pensar e deliberar novamente pelo "Vamos em frente que atrás vem gente”; “Há uma luz lá na frente”; “Somos todos cidadãos”;  “Verdes agora, verdes para sempre”. Incertezas e mais incertezas, eis o regime que se nos avizinha. Ora, pois, “Tranqüilos e seguros”, apenas os “achados”. Dispensa-se nomeações ou citações, pois não é isso que realmente conta.  Sabemos perfeitamente  “para onde estamos indo/sendo”, a partir de nossas próprias experiências e impossibilidades de se lidar com os acasos.  

Por isso, na terceira bifurcação, no aquém/além das dobras da dobradiça fixada junto à porta, que abre e fecha muito rapidamente, sabemos  – eu e as minhas ‘patologias das urgências’  – talvez vejamos a luz antes do túnel.

 

Pragmáticos e Sonháticos

 

Eis que, finalmente, algumas palavras novas voltam ao repertório eco-lógico. Sem pretender carregar o tinteiro e derramar por excesso de tinta – zelo para que o transbordamento não venha a sujar a mesa do centro - talvez aquele dito provisório no Encontro para a Nova Política venha a ser pronunciado na ousadia primeira e que ora retorna e se expressa na forma de Utopia x Política. Pois sabemos: não há lugar para boas-novas em política (=decadência), porém, a Política casa perfeitamente bem com Utopia. Então veremos que a emergência (=emergente; o que vem à tona) na política (sinônimo de interesses explícitos ou ocultos) nem sempre coincidem com as urgências da Utopia (ali onde é possível viver o reinado das paixões).

 

Na urgência do resgate utópico (o sonhar estando-se acordado), pode-se encontrar um traço do novo por vir, sendo.  Trazida de volta à Política, certamente faria algum bem e toda diferença.

 

A isso podemos chamar de “desejo utópico”, “vida nova”,  “outro jeito de fazer política”. Ainda assim, não é possível esconder a dureza das palavras quando o assunto é político (seu lado mais decadente).

 

Se por um lado, o Fim ainda não é o fim, por outro, tão logo que a política se pronuncia – mesmo na forma de utopia – o sonho se liga à realidade, isto é, a política se encontra com o poder. Talvez essa “palavra maldita”, e seus amaldiçoados detentores, não estejam nem ai com essa conversa mole de “nova política” como desejo utópico.

 

Isso pode mesmo ser bem verdadeiro. Mas, e se trocarmos desejo por “vontade”? Vontade de potência! Vontade de poder! Ai as coisas começam a mudar de tom e de cara. Pois a verdadeira bifurcação ou dilema para se pensar “a nova política”, ou para preparar o “estamos indo, sendo” , não está entre “Novos e Usados”, “Achados e Perdidos”, “Pragmáticos e Sonháticos”, mas entre os Com e os Sem Poder.

 

Com e Sem-poder

 

A política pensada como pensamento (vida em movimento), como conceito e não como preconceitos, tendo descarregado o poder de seu “juízo moral” do dever feito à moda de uma “ética-ponto-final”, o dito interdito pelas vozes ou porta-vozes de um dado poder instituído ou mesmo instituinte, bem que poderia ser o mote de nosso movimento.

 

Pois, pensando melhor, agora juntos para respondermos individualmente, não tão desinteressadamente assim:

- Quando a palavra é dada, já não é lugar marcado e ali se dá o exercício do poder?

- Quando se diz “verde e cidadania”, ainda que provisória, não profere o seu autor, pela palavra, o seu estatuto?

- Quando se diferencia ou se demarca um “nós” com os “eles”, já não é o lugar comum da política que se repete com o retorno “dos mesmos” que somos (=iguais; diferentes; outros)

- Quando se sobrevaloriza o voto, ou a democracia (direta ou por seus representante) o problema está no voto ou na democracia, ou na medida de sobrevalor que damos a eles/elas?

 

***

 

Enfim, poderia seguir mas prefiro, por hora, desconversar essa conversa mole do novo (e do velho) em Política, tanto quanto em Poder, tanto quanto em Nomear, tanto quanto do Aparecer, do Decidir, do Organizar, do Governar  e até mesmo, do Desertar.

 

O novo nunca nasce novo se não for ousado, inventado e sobretudo desafiado. O novo é o conceito inventivo, antes de ser a verdade; é um sonho antes de se tornar realidade; é um fim antes de ter-se consumado.

 

Paradoxalmente, o realismo do novo é o mais antigo dos adágios da decadência que precede o Fim. Razão pela qual, ainda devemos preservar alguma forma de idealismo “antigo”. Pois, antes do “fim”, ainda nos resta o antes; o fim ainda sem “the end”; sem ponto final; o fim de uma estação que se abre para a estação seguinte, um recomeçar de novo e sempre!

 

É novo porque força de um outro começo, de mensagem afirmativa  e alegre que  se manifesta nas Três Novas Criações e Distribuições (de Afetos, de Riquezas e de Forças) que tenho repetido, e trazer a poesia de volta à polis, a utopia à política - e porque não - a política ao poder.  Este antes do fim; ainda é um antes que talvez se expresse na palavra ‘sonhática’ (no sentido de “carisma”, o ático e sem o “ismo”).

 

Se o dito repetido engessa o pensamento e a vida, não existe nenhuma novidade.  Escrevo isto para os interessados, portanto, para mim mesmo;  mas sobretudo escrevo para aproximar de novo os apaixonados pela Política. Pontes sobre abismos? Quem sabe isso seja o novo!

 

Uma razão “cidadã” e um discurso “verde” da sustentabilidade parece  querer separar os apaixonados do poder.  Mas quem duvida que o novo amanheça com o poder dos apaixonados? 

 

Para não espantar os devires

 

Falo e escrevo aqui das paixões afirmativas e alegres. Acho que isso é a novidade que falta nas novas e velhas mensagens políticas, que, no fim das contas, se entregam aos braços e afagos do poder pelo poder. Talvez seja de alguma valia o que escrevi nos Escritos da Espera e tenho dito desde o primeiro dia que pisei de novo num partido político: uma política para (dis) parar os Atos: isso sim da o que pensar, o que fazer, o que viver.

 

Termino com uma in-citação filosófica de Peter Sloterdijk, colhida aqui no jardim da minha casa, em seu livro “Mobilização Infinita”:

 

     “O espaço político é um prosaico local de trabalho e luta. Nele se movimentam aqueles que conseguem reduzir suas paixões existenciais ao formato de interesses práticos. (...) entende-se que a política como ‘aquilo que resta’, quando as paixões são postas de parte e podem ser relegadas para os setores religiosos, estéticos ou eróticos “privados.  (...) Graças a esta modificação os homens se transformam em sujeitos políticos modernos e, de sujeitos de paixões, reduzem-se  a sujeitos com interesses, assim obterão o estatuto de pessoas políticas”.

 

Talvez a tarefa de vida, a mais urgente tarefa de vida, para os jovens e adultos s apaixonados pela vida, seja esta de reinventar a política. Como?  “Inventai-vos a vos próprios!”, diz Sloterdijk em outro aforismo.

 

Sim! há uma grande chance nestes atos e/ou espaços para se inventar a Nova Política, antes da decadência que precede o fim.  E aqui entraria a questão da credibilidade, pois no fundo, este é o fundo da questão: “partido, partido; política à parte”.

Isso pode dar certo. Isso não dá certo.

O Momento é esse! E o Movimento também o é: para onde estamos indo, sendo?

 

Inventai-vos!

 



[i] Nuance importante e diferencia posta no Movimento ou Em Movimento. A questão das “maiorias” e das “minorias”, da “base” e das “lideranças”, das “causas” e das “conseqüências”, das “massas” e das “vanguardas” que desenvolverei oportunamente.

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Comentário de Carlos Silva em 18 julho 2011 às 0:52
http://youtu.be/o1Ld1nJJzf0, pois são eles os jovens os principais eleitores em 2014, seão 50 milhoes de eleitores com certo grau de informção, urbanos, com curso superior e no mercado de trabalho. um tanto conservadores, mais sonhadores
Comentário de Anselmo Döll em 16 julho 2011 às 2:43

Precisamos ir além dos sonhos. Precisamos de uma visão de onde desejamos chegar.

Também nãopodemos ficar de molho, aguardando. Necessário se faz, agir.

Por último, temos que nos limpar, purificar e deixar para trás o velho homem, o velho estilo fingido e falso.

Não podemos estar criando um novo movimento com os mesmos problemas de tantos outros.

Esta é sem dúvida a parte mais difícil, onde as pessoas desejam aparecer mais do que a causa pelo qual estamos empenhados.

Então, vamos refletir sobre isso.

Ninguém é mais do que ninguém ou menos importante.

Todos temos um talento que será aproveitado e isto deve ser valorizado desde o princípio e jamais barganhado por posições ou cargos.

Vamos em frente???

Comentário de Marcela Moraes em 15 julho 2011 às 21:13

Caro Jose Paulo, gostei muito da sua pro-visão! Li, Re-li e voltarei. 

Também gostei do Bom de Ler - quero saber mais, acompanhar!

Um abraço, utópico.

Comentário de Carlos Silva em 13 julho 2011 às 22:30
as nuvens são confusas, existe uma brisa rarefeita, uma calmaria como a que vemos no rio amazonas, antes de uma tempestade sanhuda.

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