2010 está chegando. Menos para nós, mortais comuns, e mais para os políticos, que já respiram eleições há muito tempo. Isso é normal. Menos normal talvez tenha sido a tentativa de empurrar o eleitor para uma sinuca de bico. Empurrão grosseiro e precipitado. Sinuca de bico, porque se buscava surrupiar a liberdade de escolha e reduzir o cardápio eleitoral a duas opções para presidente: A ou B, ou nenhuma das respostas anteriores –a famosa NRA das provas de múltipla escolha. Como NRA, em eleições, é um caminho sabidamente insensato, mesmo quando adotado com espírito crítico --porque acaba presenteando o menos consciente com o poder de decidir por ele e por quem anula o voto--, ao eleitor não restaria alternativa senão decidir entre o continuísmo assumido (a candidata do PT) ou o continuísmo envergonhado (o candidato do PSDB).
Mas, eleitor, eleitora, sua angústia acabou –e a saída não é uma promoção das organizações Tabajara. Nada disso, a sinuca foi para o espaço e a jogada esperta e pouco democrática de limitar as escolhas deu com os burros n’água. É provável que a senadora Marina Silva saia do PT, entre no PV, e se candidate à presidência, em 2010, abrindo uma porta, uma janela e um horizonte inteiro de novas possibilidades.
Veja as vantagens de Marina.
O mundo começou a levar a sério –até mesmo os EUA, desde a vitória de Obama-- os temas que têm sido, ao longo de três décadas, as bandeiras políticas da senadora pelo Acre: a questão do meio-ambiente e do desenvolvimento democrático e sustentável.
Ao longo de sua vida pública, Marina vem defendendo as seguintes opiniões: o desenvolvimento nem sempre é um processo virtuoso. Pode ser prejudicial, se provocar a devastação dos recursos naturais (da água, sem a qual não vivemos, ao ar que respiramos). Hoje, sabemos que os danos ecológicos se voltam contra a humanidade, sobretudo contra os mais pobres-que são sempre os mais vulneráveis, porque têm menos capacidade de resistência a catástrofes e à deterioração da qualidade de vida. Os impactos acabam atingindo em cheio a própria economia. Hoje, sabemos como é ilusório o crescimento pelo crescimento, centrado na indústria automobilística e na transformação da vida cotidiana de todos, particularmente dos trabalhadores, em um inferno. Tornou-se evidente que os empreendimentos rurais predatórios têm vida curta e condenam à morte o futuro do Brasil –colocando em risco o planeta. Aquilo que os técnicos chamam matriz energética e que se refere às fontes de energia empregadas pela economia de um país deixou de ser tema acadêmico, porque não diz mais respeito apenas ao futuro: já afeta o presente e nos atinge a todos. Mais empregos e mais desenvolvimento, sim, claro, desde que associados a menos desigualdades e menos destruição, e mais qualidade de vida –especialmente para os que não podem compensar o stress do trabalho com férias no exterior, caros Spas, planos de saúde, massagens e psicanálise.
Além disso, Marina encarna a ética na vida pública (e privada). Não precisa falar nisso, assim como Obama não precisou falar na cor de sua pele e no significado revolucionário de seu triunfo para a democratização das relações raciais e para a afirmação dos direitos humanos. Nos EUA e no mundo. Ele era essa mensagem. Encarnava essas palavras. Seu corpo, seu nome e sua biografia proclamavam bem alto tudo isso. Acontece o mesmo com Marina. Silenciosamente, ela porta consigo a mensagem e o compromisso que marcou sua vida: os seres humanos merecem respeito. Os brasileiros merecemos. Todos os seres, a natureza. Com sua delicadeza proverbial e a prudência que a vida na floresta lhe ensinou, Marina encarna a mensagem de justiça e paz, solidariedade e trabalho, equidade e inteligência, abertura e imaginação, dignidade e confiança, simplicidade e ousadia, competência e lealdade, que emerge do fundo mais nobre de nossa América.
Ela cresceu em palafitas sobre as águas dos rios. Aprendeu a ler e escrever perto dos 18 anos. Não se entregou, nem cultivou ressentimentos. Lutou com Chico Mendes e, ao contrário de seu querido companheiro de travessia, sobreviveu às mil e uma ameaças. Chegou à universidade. Graduou-se em história. Recusou-se a fechar-se em um gueto doutrinário e dogmático de ideologias sufocantes e autoritárias. Veio do coração mais profundo da Amazônia, respirou os ares do Brasil que se democratizava e compreendeu que não haverá uma nação próspera e razoavelmente justa, pluralista e generosa, sem São Paulo e os pólos dinâmicos da produção industrial, sem as contribuições contraditórias de todas as classes, no tumulto inescapável dos conflitos e das disputas, sem a sociedade civil, o fortalecimento das instituições, o respeito aos ritos democráticos.
Marina conquistou admiração internacional, mas não tirou os pés do chão. Apoiou o percurso de Lula ao Planalto e aceitou o desafio de ser ministra do meio ambiente. E persistiu por vários anos mesmo sem ambiente no governo. A coalizão que Lula armou para garantir a governabilidade trouxe todos os segmentos econômicos e sociais para dentro do governo, neutralizando as oposições (abduzidas, cooptadas, divididas e esvaziadas), o que lhe proporcionou estabilidade e ampla liderança política –sobretudo desde que decidiu adotar a velha e desgastada plataforma do PAC como recurso de campanha permanente, em tempos não-eleitorais. Mas a amplitude das alianças que consagrou o presidente lhe impôs severos limites. Convertendo seu governo numa prodigiosa Arca de Noé, teve de fazer escolhas trágicas e foi obrigado a deixar de fora, pelo caminho, alguns valores e compromissos que lhe deram identidade, ao longo de sua carreira.
Marina saltou da Arca, pulou do caminhão-governo em movimento e juntou os trapos que restaram das velhas bandeiras. Parece disposta a costurar os retalhos de sonhos e começar de novo. No entanto, não creio que deseje repetir os erros do PT e que o transformaram em apenas mais um partido, igual aos outros. Tampouco acredito que deseje inventar a roda e jogar no lixo as conquistas de Lula e do próprio PT. Ou o patrimônio de racionalidade econômica que Lula herdou e que desqualificou como se fosse uma herança maldita. Nem continuísmo, nem desprezo pela história. Mudança com maturidade, compreensão da complexidade dos fenômenos, mas coragem para ousar; para enfrentar, enfim, uma agenda sempre desprezada: o desenvolvimento sustentável, uma reforma profunda nas regras da representação política, e a redução para valer da violência e das desigualdades no acesso à Justiça (as iniquidades começam na abordagem policial e terminam nas penitenciárias).
Vai ser muito, muito difícil vencer as eleições –mas não impossível. Assim como tampouco seria impossível que, mesmo não vencendo, a campanha de Marina fosse capaz de mudar o destino desse pleito e o futuro do Brasil. Vai depender dela, sem dúvida, mas também de você.
Se liga, eleitor. Se liga, eleitora: Marina, democrata por natureza.
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