21/08/2010 - 21:00 | Enviado por: Mauro Santayana
Por Wilson Figueiredo - Coisas da Política - JORNALDO BRASIL
À medida que se aproxima a eleição que sacode a mesmice eleitoral, mais o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva pega jacaré nas ondas e, confiado
no que dizem as pesquisas, dá como inevitável a vitória que fará a ponte
sobre a qual pretende chegar ao terceiro mandato propriamente dito.
O
mandato impropriamente dito é o que promete emprestar a Dilma Rousseff,
sem pensar em reeleição, quando em 2014 se encontrarem em território
brasileiro a eleição presidencial e a Copa do Mundo.
Até lá, o
presidente ainda não terá se decidido, entre tanta coisa que já lhe
passou pela cabeça. Ainda não sabe a que aplicar sua disponibilidade
presidencial, mas anunciou o que pretende no governo alheio e, como quem
não quer nada, pegará carona no mandato da afilhada. A lua de mel
eleitoral entre padrinho e afilhada alternará quartos crescentes e
minguantes, como qualquer acordo político que se preze.
Em Pernambuco, para não chover no molhado, numa região em que o mais
forte, politicamente, são as grandes secas, o presidente prometeu que,
assim que deixar o cargo, sairá por aí em peregrinação por todo o país
e, caso observe algo errado, deixará para trás a promessa de não
incomodar o sucessor ou sucessora.
O tom gentil de falar é a garantia
que, na condição de avalista principal, oferece aos eleitores: a
candidata Rousseff não é portadora de riscos (os petistas tinham o pé
atrás em relação a ela, mas por outras razões que a razão finge
desconhecer). Lula dá o exemplo de confiança: eleição, mas sem
reeleição, para Dilma Rousseff. O socialismo pode estar de pé, mas ele,
Lula, estará sentado para se refazer.
“Quem pensa que vou deixar a Presidência e vou para Paris”, a seu ver,
erra porque ele, o presidente, sem gastar seu francês, se dispõe a
percorrer o país de cabo a rabo, para ver “o que fiz e o que não fiz” (e
que é a maior parte). Promete que, “se tiver alguma coisa errada”,
pegará o telefone e autorizará “minha presidenta” a fazer o que ele,
Lula, não tiver conseguido. Por aí se entende melhor, como complemento
circunstancial de hipótese, o mandato por ele delegado a Dilma Rousseff.
No começo do ano Lula descobriu o segredo da sucessão e incorreu num
anacronismo que Freud não desculparia, ao apresentar como de sua autoria
o princípio implícito na monarquia: “rei morto, rei posto”. Entende que
Dilma Rousseff terá de criar um estilo próprio “de fazer as coisas
dela”. Por existir mais de uma coisa, precisará de muita atenção: a
primeira já está esquecida (foi disposição da mocidade), a segunda foi o
brizolismo, e a terceira ainda não se completou.
Presidente, na
exacerbação do presidencialismo, pede – no mínimo – respeito republicano
equivalente: melhor que Lula tivesse dito, sem superstição, “presidente
morto, presidente eleito”. É por aí. No caso brasileiro, aproveitando a
oportunidade, aconselha-se a despachar para o exílio histórico a figura
do vice-presidente, que nada tem a acrescentar, exceto as crises de
apendicite republicanas
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