Consultor econômico da campanha de Marina diz que o governo gasta mal e está tentando dar um passo maior do que as pernas
Prestes a lançar em agosto seu novo livro, “A ilusão da alma”, o economista e filósofo Eduardo Giannetti da Fonseca, 53 anos, é um dos principais consultores econômicos da equipe da candidata do PV à Presidência, Marina Silva. O novo livro, uma ficção existencialista, deixa fluir seu lado filosófico ao abordar a história do sobrevivente de um tumor no cérebro que passa a estudar obcecadamente neurociência e questionar sobre a verdadeira função da mente.
No dia a dia da campanha, no entanto, Giannetti é um economista que não se deixa iludir pela prosperidade brasileira atual. Ele acha inaceitáveis e irresponsáveis os aumentos concedidos aos aposentados e ao funcionalismo pelo governo Lula em ano eleitoral. Considera os candidatos José Serra e Dilma Rousseff bons gerentes, mas não estadistas, pois, diz, são incapazes de pensar um futuro generoso para o país. “Como bons gerentes, Dilma e Serra seriam ótimos ministros de Marina Silva”, diz ele.
Gilberto Scofield Jr.
SÃO PAULO
O GLOBO: Como o senhor vê a decisão do presidente Lula de dar aumentos a aposentados e servidores em ano de eleições?
EDUARDO GIANNETTI DA FONSECA: Em seu dois mandatos, Lula expandiu muito os gastos. A receita do setor público aumentou 6,5% do PIB (Produto Interno Bruto, a soma de todas as riquezas produzidas no país) por conta da alta na carga tributária e da redução no pagamento dos juros da dívida pública graças à queda nas taxas básicas de juros. Isso liberou recursos para gastos. O que foi feito desse dinheiro? Bem, 5,5% do PIB viraram gastos correntes e 1% virou investimento, incluindo as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Ou seja, o Estado brasileiro absorve 36% da renda nacional com impostos e entrega como investimento, tudo incluído, menos de 2% do PIB. Isso é inaceitável e reduz cronicamente o potencial de crescimento sustentável do Brasil.
Qual o problema da política econômica?
GIANNETTI: Há falta de coordenação entre a área da Fazenda e o Banco Central (BC). O aumento do gasto público vai na contramão da necessidade de conter o superaquecimento da economia, tarefa hoje exclusiva do BC. Ou seja, um lado pisa no freio e o outro, no acelerador.
Mas o superaquecimento ocorre também pela muito agressiva expansão do crédito via bancos oficiais: Caixa, Banco do Brasil e especialmente o BNDES, que está sendo financiado agora com o endividamento do Tesouro.
Criou-se um cordão umbilical perigoso entre o BNDES e o Tesouro, política chamada tecnicamente de parafiscal, porque não aparece no orçamento, não foi votada, envolve subsídios enormes para o setor privado e aumenta a demanda, porque libera dinheiro para gastos e investimentos de curto prazo.
Estamos sendo irresponsáveis?
GIANNETTI: O Brasil está tentando dar um passo maior do que a perna e não vai conseguir.
Estamos tentando, ao mesmo tempo, aumentar o consumo das famílias, o investimento privado, o investimento público e os gastos do governo. Não dá para fazer tudo isso junto.
Já há superaquecimento?
GIANNETTI: Os sinais são evidentes: pressão inflacionária e desequilíbrio nas contas externas.
Isso aumenta o custo para a sociedade. Os juros vão ter que subir mais do que precisariam para reduzir a inflação. A qualidade da política econômica no primeiro mandato do Lula foi muito superior ao do segundo, especialmente pela agenda de reformas microeconômicas.
O uso do BNDES preocupa?
GIANNETTI: De 2008 a 2010 são R$ 180 bilhões de crédito novo, financiado por meio de dívida que não aparece no total da dívida líquida do setor público. O Tesouro emite e compensa com o empréstimo que faz ao BNDES.
Mas isso aparece na dívida bruta do governo, que está crescendo acentuadamente, hoje em 64% do PIB. Este caminho é muito perigoso.
Embora não salte aos olhos pelo volume, a dívida impressiona por sua extravagância em termos de custo. O governo se endivida em prazos curtos pagando no mínimo a taxa básica de juros e depois empresta para os parceiros do rei, cobrando taxas bem menores que os juros básicos. É um subsídio maior do que o Bolsa Família para grupos escolhidos a dedo.
De quanto é esse subsídio?
GIANNETTI: Estamos falando de R$ 10 bilhões a R$ 12 bilhões por ano. Num estado de direito, o subsídio existe, mas tem que ser politicamente negociado, passar pelo Congresso e ser explicitado no Orçamento. Não está sendo. Agride a democracia constitucional porque é dado discricionariamente.
A participação ativa do Estado na economia, como defende o governo e sua candidata, é mesmo uma necessidade?
GIANNETTI: Eu discordo. O Estado tem papel fundamental, por exemplo, na formação de capital humano, na saúde pública e saneamento. Mas ele se tornar empresário e escolher os vencedores a partir de uma lógica de geopolítica e não de eficiência de mercado não funciona.
O que o Brasil precisa entender neste momento favorável é que é hora de pensar no futuro seriamente, o que significa investir em educação fundamental de qualidade, pesquisa e desenvolvimento e treinamento.
Temos que usar conhecimento gerado no Brasil para acrescentar valor aos recursos naturais e preservar nosso patrimônio ambiental.
O grande risco que corremos é a complacência.
De quê?
GIANNETTI: Imaginar que as coisas, porque estão bem agora, continuarão assim indefinidamente.
Nossa base de recursos humanos é claramente a mais grave deficiência civilizatória deste país. Tem um dado da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar, feita pelo IBGE em 2008, que deveria ser seriamente discutido hoje: 44% das crianças brasileiras até 14 anos residem em famílias pobres, com renda familiar per capita inferior a R$ 200. E 20% em famílias com renda inferior a R$ 100. Ou seja, apesar de todo o avanço e toda a nova classe média, a situação da infância no Brasil é calamitosa.
Metade da população não tem saneamento básico.
Mas e os programas sociais do governo?
GIANNETTI: Os programas do governo beneficiam a população de maior idade, como a previdência ou o ensino superior gratuito para os ricos. Eu não sou contra o Estado de maneira nenhuma, mas acho que o Estado brasileiro está onde não devia e não está com mais qualidade onde deveria estar.
Como e por que aderiu à campanha de Marina?
GIANNETTI: A consolidação da Marina Silva como liderança relevante é importante para o futuro do Brasil. Duas pessoas me influenciaram na decisão de participar: o Guilherme Leal, que eu admiro como empresário e gosto como pessoa, e o Caetano Veloso, com quem converso sobre política há 20 anos. Eu me sinto bem em poder contribuir, dentro dos meus limites, para que a liderança da Marina se firme.
Qual é a sua participação?
GIANNETTI: Eu me engajei no início do ano. Converso com a equipe e com a Marina, falo sobre o que penso, e posso dizer que concordamos no essencial.
O país precisa se abrir para o novo. Começa pelo modo de fazer política. Não cair na armadilha de se aliar ao que há de mais retrógrado no país em troca de representatividade ou governabilidade. A Marina é uma liderança política capaz de trazer o que há de melhor no país para seu programa de governo, além de ser capaz de mobilizar forças sociais para esta mudança. A Dilma Rousseff e o José Serra são excelentes gerentes, mas não são líderes políticos. Falta aos dois uma visão de futuro generosa para o Brasil, algo que vá além do desenvolvimento a qualquer preço. Serra e Dilma seriam ótimos ministros num governo Marina.
Como pensar o futuro com a estrutura atual de poder?
GIANNETTI: Há gente boa em todos os partidos. Eu não sou assim tão pessimista. É claro que existem hoje muitos projetos de poder e poucos projetos de nação para o Brasil.
Em 2005, o senhor disse que as três forças políticas de oposição forjadas durante o regime militar —o PMDB de Ulysses Guimarães, o PSDB de FHC e o PT de Lula — foram testadas e mostraram méritos e limites.
Em 2005, disse que era razoável esperar que o sistema político passasse por uma depuração de forças e lideranças. Mas hoje o país está polarizado como nunca. O que aconteceu?
GIANNETTI: A depuração leva tempo. Estamos encerrando um ciclo, e acredito que agora seja a hora de renovar o cenário político brasileiro. O debate entre tucanos e petistas é um debate em torno de gerências e não sobre visões de futuro que temos para o Brasil.
O senhor uma vez comentou que, “com o apagão político do governo Lula, cai por terra a crença de que a solução efetiva dos desafios do país depende apenas de vontade política ou do voluntarismo dos ’justos e bons”. Então, como ter fé em Marina?
GIANNETTI: Precisamos de lideranças políticas que se preocupem em criar novos consensos e não em perseguir consensos já existentes e que não se sustentam no longo prazo, como é o caso atual. Marina é a única liderança capaz de inspirar os eleitores a fazer um país que não continue sendo mais do mesmo, uma cópia ruim do modelo norte-americano.
Mas Marina Silva está muito distante dos candidatos mais bem colocados…
GIANNETTI: Não é um projeto que se esgota nestas eleições.
O senhor é nome forte para ocupar o cargo de presidente do BC num governo Marina?
GIANNETTI: Não é meu perfil.
Eu seria péssimo presidente do BC. Não tenho perfil executivo e sequer consigo controlar o orçamento da minha casa.
Qual sua opinião sobre o trabalho de Henrique Meirelles?
GIANNETTI: O papel do BC é terrível: tirar o barril de chope da sala quando a festa está esquentando.
E nisso, sejamos justos, o governo agiu exemplarmente.
O BC sempre trabalhou com autonomia operacional aqui. E a Marina Silva entende que não se faz aventura com o BC. É perigoso. O PV sabe que a estabilidade macroeconômica é um valor inegociável
Acha que o crescimento do PIB e a situação da economia podem influenciar decisivamente a briga eleitoral?
GIANNETTI: Ainda ajudam a eleger o presidente porque ter um emprego formal é uma aspiração legítima de todo cidadão.
Mas esta preocupação obcecada com o desenvolvimento esconde o fato de que o mercado de trabalho no Brasil está envelhecendo, é ainda pouco qualificado e com muita gente querendo se aposentar sem contribuir ou contribuindo aquém do que deveria.
O déficit previdenciário do funcionalismo público, que se refere a três milhões de pessoas, supera todo o gasto com 37 milhões de crianças que cursam o ensino fundamental hoje. Isso é imprevidência.
O senhor critica o assistencialismo no governo Lula, mas muitos economistas dizem que as políticas de transferência de renda do atual governo foram responsáveis pela expansão do consumo e redução da desigualdade.
Isso não é bom?
GIANNETTI: Não sou contra os programas de transferência de renda e acho que famílias realmente necessitadas precisam dessa transferência. Mas isso tem que ser uma situação transitória.
Não entendo quando o governo comemora o crescimento no número de famílias que vivem de bolsa. Isso deveria ser motivo de preocupação, porque o ideal é tirar as famílias da situação de dependência.
Qual sua opinião sobre lideranças que fomentam paternalismo?
GIANNETTI: Dilma Rousseff e Lula têm um parentesco com o getulismo neste sentido. E o fato é que um governo que dá Bolsa Família para os pobres e bolsa-BNDES para grandes grupos empresariais fica com uma boa parte da sociedade em suas mãos. É um governo que está tutelando as pessoas. O economista Raul Velloso tem um conta impressionante: a soma das pessoas que possuem rendimentos advindos de arrecadação de impostos, como funcionários públicos, beneficiários da previdência pública e os que recebem Bolsa Família, chega hoje a 40 milhões de famílias, algo como 120 milhões de pessoas. Isso dá ao Estado um poder de tutela que torna difícil para a oposição alterar.
Getúlio Vargas soube como ninguém usar a tutela econômica dos cidadãos com fins de dominação política.
O fato de Marina ser evangélica pode comprometer sua performance nas urnas? Dizer que é contra o casamento gay, mas a favor da “união civil de bens”, não é fugir do debate?
GIANNETTI: Há uma confusão sobre convicções pessoais de Marina e o que sua campanha defende, inclusive sobre o que precisa ser debatido na sociedade.
É preciso melhorar a comunicação da campanha. A Marina é de um respeito humano sem correspondência na política brasileira, que ainda se vangloria de certa truculência.
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