IBITIPOCA
Se você chega no final de semana e não tem nada programado para se fazer, digamos algo realmente interessante que faça bem a cabeça e ao corpo e, principalmente, possa liberar o espírito em aventuras que passem longe das massantes jornadas cotidianas, com as suas promessas de progresso econômico, não perca o seu tempo. Pegue uma mochila, água, cereais, protetor solar e faça uma boa caminhada.
Uau! Nessas horas encarno o personagem de Thomas Mann, do seu livro Montanha Mágica, que é Hans Castorp. Ao visitar o primo num sanatório, localizado na Suiça, Castorp descobre que quase por acaso, que também estava doente.
A sua doença estava relacionada as mais diversas matizes psicológicas, uma delas: seguir a risca as regras da civilização. Durante anos o personagem se anulou entre os homens, ao se sacrificar a favor dessa engrenagem chamada crescimento industrial; ele não sabia que alimentava uma cegueira interior. Em outras palavras, Castorp era uma máquina a serviço do sistema e não de sua própria cabeça.
Bem... Para quem está afim de sair da conturbada realidade imposta, e se liberar das amarras existenciais do relógio humano, a grande pedida é andar livremente pelas trilhas e quebradas do Parque Estadual da Serra de Ibitipoca. Se você é da tribo que curte perambular sossegado por caminhos ecológicos e que adora novos desdobramentos astrais (essa é boa), a serra permite insights formidáveis e o lança para fora do quadrado mágico do mundo moderno, para outras jornadas humanas. E nem precisa gastar muito dinheiro nessa história. Chame os amigos, divida o combustível, e boa viagem. Você tem a opção de passar pela estrada Ibertioga-Santa Rita de Ibitipoca ou ir pela BR-040 e seguir para Lima Duarte.
O arraial de Conceição de Ibitipoca, não sei se são os meus olhos, está muito mais simpático que no passado. Alguma coisa rola por lá. E boa! Conheci Ibitipoca quando fiz o documentário Movimento Terrestre, em 1991, que foi selecionado para participar da mostra internacional de vídeos ecológicos na Eco-92, no Rio de Janeiro. Na época o presidente do juri era o cineasta Nelson Pereira dos Santos.
Na ocasião colhi depoimentos de muitas pessoas interessantes do distrito de Conceição de Ibitipoca, um deles foi o do Sr. Alvino Micarelli, 68, que trabalha no parque há 27 anos. E como não poderia deixar de ser, o encontrei novamente. Como sempre simpático, ele se encontrava na entrada do parque [Esse passeio rolou recentemente, depois que o governador Aécio Neves esteve por lá para inaugurar melhorias na área de infraestrutura do parque].
Com um sorriso sincero no rosto, Alvino disse: “Aqui está muito mais bonito e organizado. O turista está mais consciente sobre os problemas da natureza. Esse lugar continua sendo um santuário ecológico”.
Nos despedimos do Sr. Alvino e colocamos os pés na estrada, ou melhor nas trilhas. Na primavera a temperatura fica agradável para as caminhadas longas, mas como o passeio era de um dia o pessoal escolheu ir a lugares menos ingremes, e fazer uma caminhada mais tranquila. Mais zen. Aí adentramos na trilha para ir até o Lagos dos Espelhos. Como sempre magnifico.
Lembro-me bem que em 1989, escrevi um conto sobre o lago. Na verdade eu sempre tive uma paixão indescritível pela beleza desse lugar. Naquela época trabalhava em rádio e um dos meus programas era de música instrumental, que tinha sempre na agulha da vitrola (não existia ainda o cd player), Marco Antônio Araújo, Ornaldo Ornelas, Pat Metheny e outras feras. Eles me ajudaram bastante no momento em que conduzia cada letra na construção desse conto.
Voltemos a caminhada. Depois do Lagos dos Espelhos o percurso foi feito através do rio até a Prainha das Elfas. De lá fomos para a outra Prainha. Paramos e comemos alguma coisa. Pronto! O lance agora era seguir até o Lago das Miragens. Ufa!!! Mais um visual que merecia fotos e, como não poderia deixar de ser, um mergulho. Nossa... Que água fria!!! Mas valeu. Novamente mochila nas costas rumo a Ponte de Pedra. Aí só se ouve o som das câmaras fotográficas, guardando aquela cena impressionante.
Lançamos nossos corpos até a cachoeira dos Macacos. A sensação é inexplicável. O lugar é muito lindo. Neste momento minhas emoções estavam conectadas com a energia daquele ecossistema. Não havia poluição urbana, carros, prédios e nem vozes maldosas distorcendo o ar.
Pausa para novas reflexões. Se tudo que o ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore apresenta no seu documentário “Uma Verdade Inconveniente” acontecer, principalmente se toda a humanidade não tomar uma atitude mais responsável, as novas gerações não terão o prazer de conhecer Ibitipoca”. Credo!!! Paro os fluxos do pensamento e observo por instantes duas borboletas a se entrelaçarem próximas da farta vegetação.
Al Gore faz uma análise sobre a questão do aquecimento global, mostrando os mitos e equívocos existentes em torno do tema e também possíveis saídas para que o planeta não passe por uma catástrofe climática nas próximas décadas. “Será que vamos conseguir?”, penso enquanto escrevo sentado numa pedra.
A tarde começa a cair bem lenta. A volta pede bom desempenho físico. A turma resolve comer alguma coisa no arraial. Na descida escuto Joe Cocker e me integro aos efeitos da luminosidade do verão e das cores daquela exuberante natureza. Os pensamentos mais uma vez divagam: “De fato, precisamos valorizar a existência. Ela vale esse esforço. Principalmente quando se trata da Serra de Ibitipoca”.
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Bom te reencontrar por aqui!
Animado Deputado?!
Beijo no seu coração com gosto de sucesso e vitória.