A dívida pública é a forma utilizada pelo governo para financiar suas ações, sejam gastos e investimentos sociais, manutenção da estrutura administrativa e gerenciamento da política monetária e cambial. Funciona como um orçamento comum: quando as receitas, que no caso do Estado vêm da arrecadação de impostos, não são suficientes para as despesas previstas há um pedido de empréstimo que deve ser pago posteriormente.
E quem empresta para o governo? Investidores, pois os ganhos com juros são altos. Há um mercado em torno dos chamados títulos do tesouro nacional que são os instrumentos utilizados para a tomada de empréstimo. Quem tem um título tem a promessa de pagamento com juros e correção monetária. E o governo faz de tudo para não ficar com fama de caloteiro, por isso, corta gastos e toma novos empréstimos para pagar dívidas antigas. Parece correta a ação do governo, afinal,honrar compromissos é importante. Mas o que não nos perguntamos é se queremos reduzir gastos sociais para repassar ganhos para a parcela mais rica da população.
A distorção é evidente quando observamos que o Brasil gasta algo em torno de 0,5% de seu PIB (Produto Interno Bruto) com programas de assistência direta e transferência de renda que atendem 50 milhões de brasileir@s. E ao mesmo tempo utiliza 5% do PIB para o pagamento de juros da dívida pública que beneficiam 20 mil famílias investidoras. Em 2009, o orçamento federal destinou aproximadamente 36% dos recursos para pagamento da dívida, 5% para a saúde e 3% para a educação. Esse é o Brasil que queremos?
Evidentemente, queremos um país que tenha consistência monetária e financeira, mas se a justiça social é uma meta talvez precisemos rever entendimentos. A dívida pública é considerada sustentável se a restrição orçamentária do governo pode ser satisfeita sem ruptura nas políticas monetária e fiscal, mas seria essa a sustentabilidade desejada? A restrição orçamentária em gastos sociais não deveria ser preteria ao serviço da dívida? Porque o serviço da dívida é um gasto vinculado que não pode ser comprimido e os gastos com saúde e educação não estão vinculados às receitas públicas e sempre podem ser reduzidos?
Aqui não se fala em calote, mas podemos pensar na revisão da forma de correção da dívida antes de dizermos que a única alternativa é a redução de gastos públicos que atingem programas sociais. Hoje a correção está vinculada à taxa SELIC que não cai, devido ao discurso da contenção da inflação, mas poderíamos até perguntar se esta taxa não cai justamente para beneficiar investidores que tem interesse nos títulos do tesouro.
O interesse de alguns por ganhos imediatos com a dívida pública parece estar se sobrepondo ao interesse de muitos na redução dela. Por isso, Marina diz em suas diretrizes de governo que: “é fundamental conter o crescimento dos gastos públicos correntes à metade do crescimento do PIB (mantendo a possibilidade de política fiscal anticíclica nos momentos de retração econômica), estimular a poupança de longo prazo, substituir a sucessão de programas extraordinários de anistia fiscal (que se iniciou no âmbito federal com o Refis) por estratégias mais sólidas de recuperação de créditos tributários”
Vemos que a sociedade brasileira paga caro pela dívida pública seja na carga tributária ou na ausência de serviços públicos de qualidade. Uma economia sustentável traça um caminho concreto para a justiça social, por isso é necessário que tenhamos políticas econômicas consistentes e previsíveis. Isso não implica manutenção da situação atual, mas enfrentamento sério de dilemas como concentração de renda e aumento da dívida.
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